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30 anos de Afrociberdelia


Eles deram a cara a tapa e entregaram tudo o que podiam. Fincaram a bandeira de Recife no topo da música brasileira para que todo o país pudesse ver, ouvir e sentir.


Chico Science foi a maior estrela do mangue. Um homem que se tornou herói em Recife ainda em vida e, após sua morte em um trágico acidente de carro, em 1997, virou lenda. Ao lado da Nação Zumbi, era uma locomotiva incontrolável de sons, e o disco Afrociberdelia é a maior prova disso. O álbum completou 30 anos neste ano, tendo sido lançado em 15 de maio de 1996.


Os caras deram o recado com um estilo único. Naquela década, passaram a usar a palavra mangue para definir a música que faziam: uma mistura de rap, hip-hop, funk e rock com embolada, maracatu e outros ritmos tradicionais de Pernambuco. O termo é uma metáfora que conecta o ecossistema extremamente diverso dos manguezais de Recife à riqueza cultural da cidade.


Afrociberdelia é o segundo e último álbum de estúdio de Chico Science & Nação Zumbi, e muita gente o considera o ponto mais alto da carreira da banda. São 13 faixas inesquecíveis, como “Manguetown”, “Samba do Lado”, “Etnia”, “O Cidadão do Mundo”, “Macô”, com participação de Gilberto Gil, além da antológica releitura de “Maracatu Atômico”, de Jorge Mautner.


O conceito do álbum está no próprio título. A genial alquimia de Chico Science & Nação Zumbi unia influências da música africana, a predominância do ritmo sobre a melodia, o interesse pela cibernética como ferramenta de criação e pitadas de psicodelia, resultando em uma sonoridade que continua moderna até hoje.


Da Lama ao Caos e Afrociberdelia figuram entre os discos mais importantes da música brasileira. Costumo dizer que aquela foi a última grande safra musical do Brasil. Permita-me dizer que ainda existem muitas coisas boas sendo feitas hoje, mas dificilmente com a abundância e a efervescência criativa dos anos 90.


Chico Science & Nação Zumbi quebraram a estagnação do mercado musical pernambucano. Inspiradores, esses discos marcaram uma verdadeira reformulação cultural, especialmente em Recife, mudando a forma como a própria cidade enxergava sua identidade. Abriram caminho para dezenas de bandas surgirem, se reinventarem ou retomarem suas atividades.


Em Afrociberdelia, o grupo investiu ainda mais na criação coletiva, expandiu sua sonoridade e incorporou novos elementos, como naipes de metais, flautas, teclados e colagens de samples. O resultado é um álbum ousado, criativo e atemporal.


Chico Science nos deixou cedo, mas também deixou um legado gigantesco. Trinta anos depois do lançamento de Afrociberdelia, sigo aqui, firme e forte, exaltando, respirando e celebrando a obra de um artista que ajudou a mudar para sempre a história da música brasileira.


-Gui Freitas

 
 
 

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©2020 por Troque o Disco. Gui Freitas

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